terça-feira, 22 de junho de 2010

Casal intelectual


Texto originalmente publicado na revista Circuito Guarulhos, 06/2010


Texto e Ilustração: Diego Calvo

Em uma carta de amor, quando o namorado cita Humberto de Campos, misturado Fernando Pessoa com uma pitada de Machado de Assis e o pior de tudo, a namorada entende e se derrete toda, estamos lidando com um casal intelectual.

A formação deste tipo de casal se dá em recitais de poesia, casas culturais, teatro, exposições de arte, shows do Hermeto Pascoal e setor de filmes antigos da locadora mais próxima. São facilmente identificados por carregarem sempre um livro grosso de letras minúsculas e, na maioria das vezes, ostentarem um belo par de óculos, resultado de muita leitura ou miopia de nascença mesmo.

Dizem que são ecléticos, gostam de todas as músicas, desde que elas sejam clássicas, poéticas, bem trabalhadas ou feitas pelo Hermeto Pascoal. Para um casal intelectual, um simples jantar se torna um evento complicado. Carne só desce com vinho branco, peixe, só com vinho tinto jovem e frutado. Para esse tipo de casal, “cabernet”, “merlot”, “carménère” são bebidas completamente diferentes.

Como hobbie, escrevem poesias, que quase sempre ficam na gaveta, entram na aula de pintura de telas e nunca terminam, vivem comprando livros incompreensíveis para a maioria dos seres humanos e assistem mil vezes filmes clássicos como “E Vento Levou ...”, com o adendo de sempre chorar quando Scarlett O´Hara (Vivien Leigh) e Rhett Butler (Clark Gable) se beijam e é indispensável falar do filme, lembrando com exatidão o nome das personagens e os nomes do atores.

Para um bom relacionamento com esses casais, pense duas vezes antes de dizer algo que você não saiba, pois, inevitavelmente será corrigido. Nomes complexos devem ser trocados pela frase “esqueci como se fala”, para não virar piadinha e, em momento algum, ofereça “Cidra” dizendo que é “Champanhe”.

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