segunda-feira, 13 de junho de 2011

Filma eu tio...


Por: Diego Calvo

Para quem nunca saiu para fotografar alguma tragédia na rua, este texto pode parecer estranho, mas, com certeza, os repórteres fotográficos se identificarão.


Todas as vezes que encaramos uma desapropriação, acidente, desmoronamento, homicídio, etc., principalmente nas regiões mais carentes das cidades, junta-se um grupo de crianças e começam a cochichar olhando para nossa câmera. De repente, um deles toma coragem e, lá do fundo da alma, ignorando completamente que em nossas mãos está uma máquina fotográfica, diz: “Tio, filma eu?!”

Claro que os mais calmos de nós irá dizer: “Isso é uma câmera fotográfica, não é uma filmadora... eu só tiro foto!”, mesmo assim, após esta detalhada explicação, o moleque retruca em bom som: “você está trabalhando para o jornal da Globo?”, a partir daí, segue-se o diálogo:

-- Não, não! Eu trabalho para jornal!

-- Então, jornal da globo!

-- Não é jornal de TV!

-- É da Record então? (como se a Record não fosse TV).

-- Não! É jornal de papel!

-- De papel? Aquele que é para ler?

-- Sim, este mesmo!

-- Então tira uma foto ‘pra gente’ sair no jornal! (Como se meu editor fosse escolher a foto dos pirralhos fazendo pose de bandido ao invés da casa da dona Gertrudes toda esculhambada pela queda de um barranco).

Bom, geralmente eu tiro a foto (que, às vezes, dá uma boa imagem), a molecada fica feliz e eu consigo terminar o serviço.

No entanto, tem alguns fotógrafos que não tem toda essa paciência e o diálogo fica assim:

-- Tio, filma eu?

-- Para começo de conversa eu não sou irmão da sua mãe para você me chamar de tio. Segundo, que isso é uma câmera fotografia, não tá vendo não?! Ela não filma.

-- É para a Globo?

-- Eles usam foto na Globo?

-- Não!

-- Então por que perguntou?—segue uma pausa – É para jornal de papel! Aqueles escritos!

-- Tira minha foto então! Quero sair no jornal!

-- Para quê!? Aposto que você nem sabe ler!

O moleque então fica sem graça e abaixa a cabeça. O repórter dá com os ombros e vai terminar o trabalho com um baita estresse provocado pelo diálogo com o pirralho!

Para aqueles que insistiram em ter uma foto quando eu fui fazer alguma pauta, aí vai a chance de ter sua imagem publicada, nem que seja por este singelo blog.

 




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