sexta-feira, 15 de março de 2013

Minha impressão do caso Mércia: do corpo à prisão de Mizael


Este é meu depoimento, minha impressão e meu desabafo do caso mais importante que tive até agora. O texto é longo, mas espero que goste.


Por Diego Calvo
Fotos Diego Calvo

Queria eu, meu caro leitor, tratar este assunto com a mesma ironia que trato outros assuntos, mas, neste caso, a coisa é diferente.

Entrei no caso, como fotógrafo, no dia que acharam o corpo da advogada Mércia Nakashima. Cheguei cedo à redação, como de costume, e fui surpreendido pela repórter Juliana Aguiar Carneiro, parceira dos bons tempos, me acelerando, pois tinham encontrado o corpo.

Pegamos o carro e seguimos em direção à represa de Nazaré Paulista. 

Um dia antes, quero lembrar, acharam o carro dela afundado na água. O fotógrafo Aparício Reis, vulgo Índio, fez uma excelente cobertura no dia. Eu estava na sessão de câmara e recebi a notícia pelos colegas de imprensa.

Voltando ao dia fatídico do encontro do corpo, chegamos à represa e lá estava, na beira, sem vida, Mércia Nakashima.

Antes de fazer a primeira imagem, fiz o sinal da cruz como de costume também, e comecei a trabalhar.


Ninguém conseguiu rir, estavam chocados com o que eu acabara de descrever, menos ele (Mizael).

Entre uma foto e outra, vi um homem, de óculos escuros, chegar devagar. Ficou na frente do corpo, agachou, e começou a chorar. Assim, simples, sem muita cerimônia.

O choro era diferente, sem som, intimo. Eu fotografei com o coração e a adrenalina a mil. O homem em questão era Márcio Nakashima, irmão mais velho da advogada.

As fotos ficavam cada vez melhores, lindas, emocionantes.

De repente, ele se levantou e fez sinal para os bombeiros presentes, confirmando: “é ela!”

A irmã, 20 dias desaparecida, havia sido encontrada, e o final da busca foi trágico, era a morte!

Márcio, de cabeça baixa, andou até um descampado e caiu de joelhos. Deu-se inicio a uma cena difícil de esquecer.

Ele chorava como quem quer arrancar a própria vida e entregar para a irmã. Mas do choro, novamente, não saia som.

O Sr. Makoto, pai da vítima, pediu para que parássemos de fotografar e filmar, o momento era intimo. Respeitamos. Mas sem a câmera na frente, fazendo a proteção psicológica, a coisa pesa mais. Bem mais.

Dava vontade de pedir para ele gritar, arrebentar com a garganta! Mas o choro copioso e dolorido era silencioso, à maneira oriental.

Dias depois, tive meu primeiro encontro com o assassino. Sim, hoje ele passou de suspeito para assassino. Mizael Bispo não parecia, deforma alguma, ter perdido alguém que, a princípio, era seu grande amor. Sorria abertamente entre uma pergunta e outra.

Mantive minha imparcialidade, como fiz estes mais de dois anos. Só que uma coisa me fez pender para um dos lados, o lado de que eu estava diante de um assassino!

Agora que acabou tudo, Mizael foi condenado, e nada que eu diga aqui vai fazer diferença, mantendo minha ética jornalística, vou contar para você, meu caro leitor, esta coisa que me fez perceber a culpa do réu.

Quando saímos do escritório de Mizael, ficamos na calçada fazendo as despedidas. A conversa rolava solta e aquilo estava me incomodando. Um dos doutores perguntou se eu estava no dia que encontraram o corpo da advogada. Respondi que sim. A pergunta seguinte foi: “como ela estava?”

Acredite, a decomposição do corpo humano é uma coisa feia. Descrevi exatamente como ela estava. Falei dos detalhes, os mesmos que minha mente ainda lembra com exatidão.

O grupo parou para ouvir a descrição da cena horrenda.

Assim que eu terminei a descrição mórbida, obtive, da pequena plateia, um conjunto de rostos expressando uma mistura de pena e aflição, menos do rosto de Mizael Bispo!

Segundos depois, um dos presentes, sem intenção de fazer rir, disse algo que eu não entendi e, para minha surpresa, o então apaixonado assassino, caiu na gargalhada.

Não riu do que eu falei, riu de algo que alguém disse, mas eu não consegui rir, ninguém conseguiu rir, estavam chocados com o que eu acabara de descrever, menos ele.

Isso me fez pensar: “como ele pode permanecer impassível diante da descrição assombrosa sobre a mulher que ele amava?” – Tire você a conclusão meu caro leitor.

Continuo afirmando que agi com imparcialidade em tudo que fiz no caso.  Fotografei tanto Mizael, quando o Marcio Nakashima, sua irmã Claudia e sua mãe Janete.

Em nenhum momento induzi ninguém a achar que este ou aquele estava com a razão. Mas hoje, depois de tudo, posso compartilhar esta história com você, caro leitor.

Isso me alivia. Apesar dos meros 20 anos que o culpado pegou (e cumprirá uns seis), sei que um trabalho foi bem feito, imparcial e completo, pois hoje, no fim de tudo, fotografei o Sr. Mizael, sem aquele sorriso de sempre, ser levado pela polícia na condição de condenado. 

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